Existe bastante coisa escrita sobre o novo livro de Armando Freitas Filho em jornais impressos e na internet: uma busca no Google o comprova. Eu por minha vez quero apenas comentar um poema deste
Lar, (é o título do livro, assim com vírgula), “Observatório”, que já na primeira leitura lembrou-me um poema de Drummond publicado em um dos livros da série
Boitempo, o “Três compoteiras”. Formalmente os poemas possuem claras diferenças que tentarei esboçar. Creio que o entendimento destas diferenças pode ser uma chave de leitura do livro de Armando e talvez das possibilidades de organização estética da memória (biográfica-poética) de um autor brasileiro maduro neste início de século.
TRÊS COMPOTEIRASQuero três compoteirasde três cores distintasque sob o sol acendamtrês fogueiras distintas.Não é para por doceem nenhuma das três.Passou a hora de doce,não a das compoteiras,e quero todas três.É para por o solem igual tempo e ângulonas cores diferentes.É para ver o sollavrando no biselreflexos diferentes.Mas onde as compoteiras?Acaso se quebraram?Não resta nem um cacode cada uma? Os cacosainda me serviamse fossem três, das três.Outras quaisquer não servema minha experiência.O sol é o sol de todosmas os cristais são únicos,os sons também são únicosse bato em cada coruma pancada única.Essas três compoteiras,revejo-as alinhadastinindo retinindoe varadas de solmesmo apagado o sol,mesmo sem compoteiras,mesmo sem mim a vê-las,na hora toda solem que me fascinaram.(Carlos Drummond de Andrade. In: Menino antigo, 1973)Para um leitor acostumado com o Drummond de
Alguma poesia (1930),
Rosa do povo (1945) ou
Claro enigma (1951), o tom deste “Três compoteiras” pode estranhar. Afinal, embora de maneiras bastante distintas em cada uma das obras citadas, a poesia drummondiana é conhecida pela tensão não apenas na matéria (na qual o eu se insere de modo conflitante) mas principalmente na estrutura do texto. Aqui, ao contrário, tem-se uma forma distendida onde os versos definem-se por conjuntos sintáticos bastante delineados, sem enjambements – artifício que desestabiliza a leitura, já que o sentido dependerá do ponto de inflexão do leitor (que pode tanto obedecer a leitura corrida da frase quanto a unidade significativa de cada um dos versos). A única exceção encontra-se no verso 19, “de cada uma? Os cacos”, não por acaso exatamente o

centro do poema. Este único verso quebrado mimetiza a idéia de “cacos” das compoteiras perdidas na infância (que a aliteração ostensiva de /k/ tenta desentranhar da memória de quem escreve) e é o ponto de virada no qual a lembrança das três compoteiras reaviva-se “na hora toda sol”.
A amenidade do poema é também corroborada pela versificação fixa, organizada inteiramente em versos de seis sílabas poéticas. Entre as redondilhas menores (5 sílabas) e maiores (7 sílabas), o poeta encontra um ponto confortável da língua – já que, segundo Bandeira, nossa fala é naturalmente em redondilha, o que explicaria o caráter popular deste metro – e, ao mesmo tempo, um lugar insuspeitado para seu canto, mantendo oculta uma beleza que ele sabe simples. O poema tem ainda muitas outras riquezas ocultas, como a rima toante “ver o sol” e “no bisel” convidando-nos esteticamente a enxergar os “reflexos diferentes”, ou ainda a marcação das tônicas sempre na terceira sílaba quando as palavras “três” ou “compoteiras” aparecem no verso, etc. Mas comparemos os dois poemas.
OBSERVATÓRIOO sol incide, no invernodesde que a janela se abrasob determinado ângulo e horáriosobre o azul da maçaneta de cristal.Demora ali, frio e fugaze logo está a um palmo adiantesozinho, sem a profundidade da corchapado no tampo da mesade jacarandá preto paraapagar, num piscar, seu átomoos pontos dourados de poeirada microtempestade visívelsó naqueles instantes, que voltarápara repetir, ano após anoo evento acima descritoa não ser que a janela se fecheou se empurre a mesa um poucoou ainda, o ramo da árvore crescenteatravesse o exato feixe de luz.(Armando Freitas Filho. In: Lar,, 2009)

O poema de Armando possui, essencialmente, um léxico muito semelhante ao poema de Drummond: “ângulo”, “cristal”, “cor” e, principalmente, “sol”. No entanto, as experiências são bastante diversas. Se o boitempo drummondiano “expressa não o vazio da falta, mas uma nova completude, vivida no presente pelo olhar íntimo que as palavras constrõem”, como afirma Alcides Villaça em Passos de Drummond (p. 122), aqui no lar freitasiano não há garantias de que o evento epifânico aconteça novamente. Como afirma Vagner Camilo em prefácio à obra, “o Drummond que comparece insistentemente em
Lar, pelo trabalho da citação ora mais, ora menos explícita, é o dos grandes livros anteriores à série memorialística, ainda marcados, portanto, pela autoanálise impiedosa e demais inquietudes características de sua poesia” (p. 10).
O poema encena esta inquietude no próprio modo como se estrutura: embora a forma seja livre, percebe-se que todos versos estão entre as 7 e 12 sílabas poéticas. Formas tão marcadas quanto as redondilhas maiores e os alexandrinos, quando usados insistentemente num poema e dentro de um campo formal tão sucinto, terão, sem dúvida, uma necessidade estética. Percebe-se que os dois primeiros versos são redondilhas perfeitas que poderiam sugerir uma organização harmoniosa como a de “Três compoteiras”. O verso seguinte, no entanto, rompe esta forma trazendo (nas entrelinhas) um outro poeta importante na formação de Armando: “sob/ de/ter/mi/na/do ân/gu/lo e/ ho/rário” é um verso em nove sílabas, forma usada a exaustão por João Cabral de Melo Neto. A entrada da regulação do lugar e hora, assim como a tônica inusitada que a palavra “ângulo” impõe ao verso, parecem corroborar esta menção implícita a Cabral – obsessão contínua de Armando que, embora reverencie o projeto cabralino, faz questão de se contrapor com sua “
Outra receita”.
De qualquer modo, a fluidez das redondilhas já estava problematizada pela vírgula (caractere presente já no título do livro): “O sol incide no inverno” é uma sentença completamente possível sem a pausa. O que a vírgula deixa clara é a intransitividade do verbo: “no inverno” não é predicado, mas adjunto adverbial. O que isso determina no poema? Bem, já no primeiro verso há um entrave: a cena epifânica depende de um momento específico no ano, o inverno. E no segundo verso encontra-se mais uma concessão: “desde que…”, a cena depende da abertura da janela (demarcada pela abertura das vogais no verso, partindo dos /e/ de “desde que” apara os /ε/ e os /a/ de “a janela se abra”). Depende ainda, a partir do terceiro verso, do já comentado “determinado ângulo e horário”, etc.
Se o menino antigo de Drummond consegue reaver a cena epifânica “mesmo apagado o sol,/ mesmo sem compoteiras,/ mesmo sem mim a vê-las”, o idoso contemporâneo de Armando embora relembre a cena com muitos detalhes, sabe que esta não tem “a profundidade da cor” do momento original. Aliás, não há reavivamento da “hora toda sol”: “O evento acima descrito”, avisa o poema, pode nunca mais acontecer – depende da posição da janela, da mesa e (mais incontrolável) do ramo da árvore que cresce em frente a casa.
Quem conhece a obra de Armando percebe que esta descrição medida não se assemelha (pelo menos, não claramente) ao impulso erótico/raivoso com o qual sua poesia caçava a vida (penso, principalmente, no livro
longa vida, 1982). Não há como negar que para ler este
Lar, é preciso um outro diapasão que pressuponha e resignifique toda a trajetória poética de Armando. Talvez a agitação furiosa destes versos não esteja na contundência estrutural (tão característica no resto da obra) mas na própria consciência (cada vez mais refinada em Armando) de que o poema apesar de estar em “determinada ângulo e horário” pode, ao “apagar absolutamente o erro”, também “errar” (como no numeral “
19”). Isso não pelo mau-jeito de quem o escreve, sempre com “overdose de rigor”, “rezando com raiva”, mas pela própria inviabilidade do material (a vida) – exposta nas inúmeras concessões para o acontecimento da epifania.
Como, portanto, a cada novo poema encontrar o “exato feixe de luz”? Armando pergunta-se isso há muito tempo – o que, afinal, acaba por incluir este
Lar, em suas questões centrais, apesar do tratamento diferenciado na composição formal. Ou melhor: o diapasão com o qual o poeta re-organizou suas antigas obsessões pode, quem sabe, iluminar pontos de sua trajetória poética ainda não clarificados.
OBS: agradecimentos a Carolina Serra Azul, Fabiano Calixto, Flávio Rodrigo Penteado, Danilo Bueno, Ivan Hegenberg, Carlos Martin, Juliana Bratfisch, Andréa Catrópa, Victor Del Franco, Rafael Daud, Roberta Ferraz, Marcelo Ferreira e todo o pessoal que esteve sábado aqui em casa para discutir poesia. Este texto estava quase pronto antes desta reunião, mas as reflexões críticas dos membros do grupo me fizeram repensar muitas coisas (não somente neste texto).